Capa
Sob o Signo do Desejo
Editorial
Editorial
M. Tiago Paixão
Ensaio [texto-dramático]
A Calema, o Solilóquio
Muriel de Walle Gomes
Humpty-Dumpty [reportagem]
La mujer de plata en Salamanca e o poema de Yolanda Castaño
Hugo Milhanas Machado
(RE)SER(VADO)
Yolanda Castaño
Highway to Heaven
Yolanda Castaño
Lugar da Mancha [prosa]
O Sono é Primo da Morte
Ilídio J.B. Vasco
Breves Narrativas
Tiago Falcoeiras
John Doe: Modelo da Personagem Humana
Rui Alberto
Imparidades
Nuno M. Ferreira
Book Cell
Muriel de Walle Gomes
CP
Nuno M. Ferreira
A Boca dos Amigos
César Parreira
Post Scriptum [ensaio]
Camões transformado e re-montado: o caso de Herberto Helder
Rui Torres
Mito e Morte nos Media
Lara Ramos
Syllepsis [poesia]
Cinzas
Maria Rocha
Hipnose: Redemption
Maria Rocha
A Cold Condolence
Maria Rocha
Demissão
M. Tiago Paixão
Entresol
M. Tiago Paixão
Cântico
Hugo Milhanas Machado
Sou marinheiro aporto somente uma vez por ano. Então amo urgentemente.
Hugo Milhanas Machado
Dormir no
Fernando de las Heras
En la Vigilia
Fernando de las Heras
Câmara [crítica]
Notas para uma aproximação à escultura de Ângelo de Sousa
Emília Pinto de Almeida
Satyr [texto humorístico]
O Estranho Mundo de Kafka
Vitor Vicente
Ikaïlanen Turünen
Adriano Barão
Separadores
#1
Hugo Milhanas Machado
#2
Ilídio J.B. Vasco
#3
Sophia Pereira
#4
Ilídio J.B. Vasco
#5
Ilídio J.B. Vasco
#6
Ilídio J.B. Vasco
#7
Sophia Pereira
#8
Sophia Pereira
Contra-Capa
Fundação
Era uma tarde fresca de fim de Setembro, uma tarde de Domingo,
as ruas cheias, homens mulheres e crianças de muitos muitos outros
países caminhando ao beber da história, da Catedral, da Universidad.
Era uma tarde já caindo para o azul rosado de quem parte para casa ou
diz adeus para sempre, ou simplesmente percorre todas as ruas uma e
outra vez mais – recordas-te Isabel? – e sempre regressa à mesma rua,
à mesma praça. Foi na Rua Mayor, que dá da Plaza Mayor para a Catedral,
para a Facultad de Filología. Ali estava ela, belíssima, cheia de
amor, a mulher de prata. Ela tomava um fruto nas mãos, um fruto de
prata, uma maçã, e era a mais bela das mulheres.
Sorrindo, sempre sorrindo-se, demorando-se anos e anos nesse
sorriso, ela ampara junto da cintura o cesto dos frutos, ela apoia com a
mão esquerda o vestido de prata. Ela oferece os frutos a quem a olha,
eu olho-a, recebo os frutos, devolvo-lhe o sorriso, quero devolver-lhe
o amor. É imenso e natural o amor na mulher de prata em Salamanca.
Uma caixa de música, lenta, muito lenta, cintilante como um cravo,
uma muito antiga melodia. Ela dança só para mim, a mulher de prata
do mais belo sorriso do mundo. Ela dança só para mim. As crianças
sorriem, festejam, ela sorri. Esta mulher tem o absoluto talento das
coisas belas, simplesmente belas. E ela partilha o belo, entrega-se ao
amor dos outros, entrega-se ao meu amor e eu acolho-a. Atendo ao seu dom como a uma dádiva, diria um dos nossos poetas maiores. A mais bela das mulheres.
Partimos não sem deixar um pequeno bilhete no pote que tem ante
os pés, onde colocamos algumas moedas. Lá escrevo não esqueceremos
o teu sorriso, mujer de plata en Salamanca... ela repara no gesto,
desenha um ainda mais belo e completo sorriso no rosto, abandona-se
nesse cumprimento, eu sorrio, sorrimos, ela posa para a fotografia que
aqui tenho comigo, agora: a bela mulher de prata elevando como oferenda
um fruto, uma maçã, sorrindo para sempre meus olhos.
Sei perfeitamente que tudo está aqui, lemos num belo poema de
Yolanda Castaño, poeta galega a quem a revista Callema oferece a capa
deste seu primeiro número. Sei perfeitamente que tudo está aqui. Em
Salamanca, naquela tarde de Setembro, caminhando ao encontro desse
ritmo dos que caminham, que simplesmente caminham, tudo esteve
perfeitamente ali, eu soube-o. Lembro os versos de Yolanda, lembro a
mulher de prata... e conquisto – sei-o – essa outra coisa de que me falava
certa noite um apaixonado poeta holandês, entendido em vinhos,
homem que agora ocupa os seus dias fotografando Lisboa (Lisboas,
corrigiria o meu amigo holandês, fotografando Lisboas): outra coisa...
outra coisa... repetia baixinho, a taça de vinho entre as mãos. Creation
is... something else, something else...
Sei perfeitamente que tudo está aqui. Deixo-te com as duas cartas
que se seguem, fragmento da minha correspondência com Yolanda.
Nelas, e lê-as no cair do mar, atenta no penitente empenho dessa outra
coisa que se busca, que se partilha, que se faz lume dos que esperam.
Por fim, dois poemários de Yolanda, um deles inédito, a tomar entre
as mãos.
(Da biografia de Yolanda Castaño, da leitura crítica da sua obra, da
exposição das diversas actividades e empenhamentos em que se desdobra
– da literatura à música, da pintura à televisão, do enérgico contributo
para a promoção da língua e do património literário galegos à
difusão da novíssima literatura junto de públicos mais jovens – aqui
fica, somente, isso mesmo: a sua menção e um não inocente estímulo
à descoberta desta poeta irmã, um convite ao elevar das pálpebras
– como por certo teria dito a jovem Yolanda em meados de noventa,
no prólogo da sua aventura, do seu cantar sob o signo do desejo.)
Com a certeza de que tudo está aqui, com o poema no bolso e o
sorriso da mulher de prata nos olhos, parto uma vez mais, na solitária
senda dessas outras coisas.
Amiga Yolanda, irmã galega:
Obriga-me a circunstância de esta nossa correspondência vir a ser
publicada no primeiro número da revista literária Callema – preenchendo
o previsível lugar de uma convencional entrevista – que esta
carta siga um vozeamento algo diferente daquele que pontualmente
temos mantido em mensagens trocadas ao longo destes últimos meses:
esta não será apenas a nossa correspondência, a nossa carta, mas também
(e essencialmente) o diálogo de e com todos os leitores que possam
vir a visitar estas (por enquanto) nossas linhas. Assim, escrevo-te
esta carta literal e litoralmente aberta: uma carta de um irmão português,
que a escreve agora com os olhos sobre o mar, um mar nocturno,
pronto para o silêncio, o mesmo mar que te abraça nas frias praias de
A Coruña. Uma carta que pretende dizer a irmandade entre as nossas
línguas, as nossas poesias – e, claro, o nosso azul. Minha poeta galega,
esta é a carta do teu leitor português.
Quando conheci a tua poesia, que logo à partida me acolheu – lembro-me que li os primeiros poemas em Dezembro de 2005, na antologia
Para saír do século. Nova proposta poética (Xerais, 1997) – a tua juventude,
aliada a uma intensa produção editorial, desde cedo me impressionou
e fez com que procurasse a tua obra – tarefa em que muito me
valeu a colaboração da também amiga Oliva Fraga, leitora de Língua
e Literatura Galega na Universidade Nova de Lisboa. Considerando a
precocidade quase rimbaudiana com que desde muito cedo trabalhas
o poema – publicaste o primeiro poemário, Elevar as pálpebras, com
apenas dezassete anos – pergunto: que lugar na tua vida se fez berço e
casa dessa voraz força chamada poesia, desse ofício chamado escrita?
A poesia não é uma decisão, dizes numa entrevista com Luis Ventoso,
em 2002, para La Voz de Galicia: fala-nos dessa não decisão de fazer poesia: quando se te revelou a sua voz, de que forma a tua mão exerceu a magia, cumpriu a sua aprendizagem, e se acercou do papel para o poema,
para o primeiro poema. Como se semeou em ti esse amor maior,
esse amor solitário?
Quando ganhou força a montagem desta revista literária ficou claro,
para aqueles que participaram no (e do) seu crescimento (e apresento-
te os meus companheiros: M. Tiago Paixão, Ilídio J.B. Vasco,
Rui Alberto e Nuno Silva), ficou claro, dizia, que um dos caminhos a
seguir, uma das luzes em cujo encalço deveríamos correr, seria no sentido
de uma irmandade galego-portuguesa e, numa perspectiva mais
ambiciosa e ampla, de uma verdadeira comunhão ibérica. Este primeiro
número tenta trilhar um pouco desse rumo: a reportagem sobre ti e a publicação de alguma poesia inédita de jovens autores espanhóis,
companheiros de cruzada, com os quais manteremos colaboração, são
disso exemplo. Com efeito, parece que essa irmandade medieval galego-portuguesa, em parte recuperada na segunda metade do século
dezanove e razoavelmente preservada nas duas, três primeiras décadas
do século vinte (e poderíamos também aqui incluir, no que respeita
à música, o rico diálogo das décadas sessenta e setenta), parece
agora esquecida, abandonada. Diz-me Yolanda, o que pensas disso?
Que ecos da actual literatura portuguesa se fazem ouvir nessa bonita
Galiza? Confesso-te que, por cá, pouco mais que a sempre bela prosa
de Manuel Rivas. Pouco mais. A Semana das Letras Galegas é sempre
um bom pretexto para visitar outros escritores, grandes e novas vozes
da cultura galega – mas é sempre pouco. Que força poderemos ambicionar
nós, as novas gerações, para o retomar desse tão bonito abraço
cultural entre povos, afi nal, irmãos?
“Pasa, rio, pasa, rio, / co teu maino rebulir; / pasa, pasa antre as
froiñas / color de ouro e de marfi l, / a quen cos teus doces lábios / tan
doses cousas lles dis, / Pasa, pasa, mais non vexan / que te vas ó mar
sin fi n, / porque estonces ¡ai, probiñas, / cánto choraran por ti!”. Os
versos são, claro, de Rosalía de Castro. Tua, e também, se mo permites,
minha mãe. Com eles me despeço, para já, sobre este madrugar azul,
esperando por esse mar sem fi m de que sempre nos falarão as nossas
literaturas, a tua voz. Até breve.
Un abrazo moi forte…
Amigo Hugo:
Efectivamente, como algunha vez eu contaba, lembro á poesía comigo
dende que teño uso de razón. Moi cedo comecei a me deixar
levar por aquela música en palabras que me traía un código propio, un
alfabeto específi co co que poder expresar moitas máis cousas das que
podía dicir coa linguaxe ordinaria. Multiplicar as potencias, as cualidades
e as funcións da mensaxe. Reduplicar o seu poder, a súa máxia,
o seu fascínio.
Comecei a ler poesía – unha poesía axeitada ao meu nível e idade,
claro está – dende cativa e, tal coma os pequenos comezan a emitir
palaras por imitación do que falan os pais, fun aprendendo tamén a
reproducir aquel código de versos, aquel cativante xénero no que eu ía
asumindo diferentes recursos (imaxes, metáforas, metonimias, anáforas…)
sen apenas decatarme de que o estaba facendo. Compuxen os
meus primeiros poemiñas na escola, con sete aniños, entre a inxenuidade
dunha nena e o principio do que se ía converter, co tempo, en boa
parte do meu mundo. O alento de profesores e familia convertiríase
nun estímulo para botar a andar a roda que xa nunca máis parou.
Quen se lanza á incrible aventura de escribir poesía, contrae un
compromiso férreo e imborrable para con ela. Porque sabe precisamente
que pouco lucro tirará dela alén do máis alto: o coñecemento
do propio e do Outro, a comunicación, a catarse. A poesía pon nome
ás veces a sensacións e sentimentos que, de puro complexos, resultan
difíciles de nomear. Quen escribe faino en total liberdade e por pracer,
necesidade, procura (ceibes e independentes).
Hoxe en día procuro estar bastante ao día do que se está a facer na
poesía galega actual, tamén na poesía española, que son as dúas literaturas
que mellor están distribuídas onde eu moro. Son moi poucas
as sinaturas portuguesas que trascenden á sociedade galega e mesmo
española. Desgrazadamente, a poesía lusa máis actual non é tan doada
de coñecer a tan poucos kilómetros do noso pobo irmán, aínda que,
persoalmente, si son unha fervorosa lectora dende Sophía de Mello
a Eugenio de Andrade, de Al Berto a Antonio Ramos Rosa. Entre os
máis novos – cómo non? – son unha atenta seguidora e admiradora
da traxectoria do inexcusable Zé Luís Peixoto, e tamén gosto de Jorge
de Sousa Braga e de Viale Moutinho. Na miña biblioteca de cabeceira
están presentes Rosa Alice Branco, Nuno Guimaraes, Antonio Franco
Alexandre ou mesmo José Mario Silva ou Jorge Reis-Sá. Pero poderíase
facer moitísimo máis para que a distribución das poesías dunha
e outra literatura fose moitísimo máis continuada xeográfi camente, a
ámbalas dúas beiras dese río pai que o Miño é. Non se entende o muro
invisible que dende anos separa dous pobos separados cando nenos!
Para ben ou para mal, igual que prácticamente ía coñecendo aos autores
galegos antes mesmo persoal que literariamente –debido á miña
relativa precocidade-, tamén cheguei a moitos autores/as portugueses/
as grazas a diversos encontros poéticos aos que tiven a inmensa sorte
de ser convidada, xa fose en Lisboa, Porto, Braga, Figueira da Foz, Barcelos
ou mesmo Funchal. En moitos casos grazas tamén –no que atinxe
á poesía, os impulsos sempre responden a motores individuais, a
vontades persoais de valor impagable- a eses enormes embaixadores e
activísimos defensores da cultura e literatura galega en Portugal, como
Carlos Saraiva Pinto, Alberto Augusto Miranda, José Viale Moutinho
ou mesmo (máis na comunidade lusófona de Bruxelas) Joaquim Pinto
da Silva. Sempre que tiven a valiosa oportunidade de facerme escoitar
en territorio portugués, foi da man dalgún destes cónsules das nosas
letras e verdadeiros protectores da irmandade galego-portuguesa.
Só esperemos que, no futuro, as relacións, os lazos entre a cornixa
atlántica se intensifi quen a tódolos niveis e en tódolos aspectos. Oxalá
esa sexa a tarefa das novas xeracións. Na música, na plástica, na literatura,
nas artes todas e na cultura pero tamén no económico, no
empresarial, etc.
A poesía, como vedes, serve ben para soñar. E tal vez non poda
cambiar o mundo, pero a palabra aínda pode mover as conciencias, que é dende onde se trocan as cousas. Así que teñamos fervor
e esperanza.
Na forza da palabra, na do verso, na vosa e nosa propia forza.
Graciñas por este doce convite. Todo un pracer.
Ánimo con todas as vosas iniciativas e sorte con todos os vosos
entusiasmos.
Unha forte e fraternal aperta.